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Revista Vão Livre No.0 - Vão Livre I

 

 

SYLVIO DE VASCONCELLOS, RETRATO EM BRANCO E PRETO

Arquiteta SUZY DE MELLO

Não posso recusar a Éolo Maia a colaboração que me solicita, entusiasmado, para "Vão Livre". Gostei do nome da revista como gosto da turma que a organiza - antigos ex-alunos, hoje bons colegas, sempre amigos.

Mas gostei muito mais ainda da idéia de homenagear o mestre de todos nós, formados na Escola de Arquitetura da UFMG, que foi Sylvio de Vasconcellos, em seu primeiro número. Só haveria uma coisa melhor: abrir a homenagem com um artigo do próprio homenageado que, sem a menor dúvida, o enviaria de Washington dando-nos mais uma lição de arquitetura e de generosidade.

Infelizmente não houve tempo para isso, mas a sinceridade da lembrança é muito válida, a ocasião oportuna e nada mais justo que reunir depoimentos de alguns dos muitos amigos de Sylvio, que , comovidos, por ele rezaram há cerca de dois meses na igreja de São José, no sétimo dia de seu falecimento.

Prefiro, porém, fazer um retrato - mais que um depoimento - sobre o professor e o amigo que,  lamentavelmente, as turmas mais novas da Escola não conheceram. Além de ser o autor de tantos e tão importantes trabalhos, Sylvio era uma personalidade dinâmica, de cultura profunda, de múltiplos interesses.

Nunca tive oportunidade de lhe dizer, mas o comparava a um renascentista tal a sua capacidade de pesquisar, observar, criar. Era uma figura do "Quatrocento", surpreendentemente surgida nas Minas. Conversava e polemizava muito, exigia debates e a partir de discussões que levantava articulava novas teorias que desenvolvia em escritos nos jornais.

Fui sua aluna em 1955, de "Arquitetura no Brasil", quando já trabalhava no escritório de Eduardo Guimarães Jr., outro grande professor que perdemos muito cedo. Formada em 56, fui para a Europa e só em 59 voltei à Escola, já então como pesquisadora. Sylvio fora um professor que se destacara por suas aulas sempre interessantes e objetivas, mas com quem pouco conversara nos tempos de estudante por estar muito envolvida no escritório de Eduardo que, como o próprio Sylvio, tinha sido dos primeiros arquitetos a conquistarem a cátedra na Escola. À eles se juntaria depois Raphael Hardy Filho, em lideranças que se refletiriam profundamente em nossa formação e que, para mim, se transformariam em enriquecedoras amizades. O reencontro com Sylvio foi casual e, a partir de uma conversa sobre Mary Vieira, amiga comum que de Minas partira para a Suíça e se tornara um dos grandes nomes da escultura moderna na Europa, passamos a falar de pesquisa em arquitetura. Sylvio ouviu minhas idéias, ampliou-as com seus conhecimentos e deu-me o apoio de sua experiência. A partir daí, surdiu a Seção de Pesquisas da Escola, supervisionada por ele e dirigida por mim. O grupo de arquitetos-pesquisadores foi ampliado e nossa presença marcou o início dos anos 60 através do trabalho conjunto com a Gráfica e o Serviço de Foto-Documentaçao da Escola. Em um ano, editamos mais de vinte livros e fizemos não sei quantas exposições. Sem falar em conferências, boletins bibliográficos e outras atividades de extensão, comuns hoje, mas inéditas naqueles tempos. Trabalhava-se com imenso entusiasmo que também contagiou os alunos, tornando-os colaboradores de muitas publicações. Sylvio escrevia muito - é desta época o belíssimo "Nossa Senhora do Ó", entre outras obras - mas incentivava a todos a escreverem também, e com sua ampla visão, procurava estimular a formação de novos professores. Foi assim que fiz meu concurso para livre-docente, em 62, com o próprio Sylvio fazendo parte da banca examinadora sem tomar conhecimento dos que falsamente o acusavam de proteção para comigo. Foi um examinador justo nas notas que me atribuiu e brilhante nas questões que me propôs, encerrando os boatos já que as sessões eram públicas e o concurso incluía a participação de mais quatro catedráticos, três dos quais de outros estados. Pouco depois, Sylvio foi nomeado diretor da Escola, porém, envolvido por intrigas em março de 64, foi afastado do cargo.

Esteve no Chile, lecionando Teoria da Arquitetura na Universidade de Santiago e trabalhando na DESAL, órgão das Nações Unidas.

Retornando ao Brasil, voltou à cátedra e continuou como chefe da diretoria regional do IPHAN, que ocupava desde 1940, quando foi criada, por indicação de Rodrigo Mello Franco de Andrade. Em 69, aposentado por ato institucional, tornou-se o primeiro coordenador cultural do Instituto Cultural Brasil- Estados Unidos, entidade com a qual já colaborava anteriormente. Suas viagens internacionais incluíram um estágio em Portugal, como bolsista da Fundação Gulbenkian e uma viagem aos Estados Unidos a convite do governo americano. Viajou, também, para a França e residiu em Paris, trabalhando no escritório de arquitetura Bernard Granei. Recebeu uma bolsa da Fundação Guggenheim, em Nova York, e contratado pela OEA como especialista em restauração foi indicado para diversas missões nas Américas do Sul e Central e, principalmente, no México, onde permaneceu por algum tempo. Fixou-se, finalmente, em Washington onde fazia consultorias para a OEA, escrevia para jornais e revistas e se transformou em excelente desenhista que - em branco e preto – retratava a paisagem da capital americana e os bucólicos campos da Virgínia. Nos últimos tempos, trabalhava com sua mulher, Muriel, em ampla pesquisa sobre textos do século XVIII referentes à Minas Gerais, tendo recebido uma bolsa de 30 mil dólares, prêmio excepcional do "Fundo Nacional para o Desenvolvimento das Artes", do governo americano, concedido apenas a intelectuais de reconhecida capacidade.

Estes dados resumidos visam apenas situar Sylvio em sua vocação cultural que não obstante tantas perseguições injustas, continuou fiel às suas origens e tendência: Minas sempre fez parte dele e de seu trabalho, dando à sua personalidade as características singulares que o tornaram um arquiteto de renome, um  respeitado restaurador, o mais importante estudioso da arquitetura colonial mineira e um escritor e jornalista de agudas observações envolvidas por um estilo leve, freqüentemente romântico porém crivado de ironia e humor.

Nossa convivência na Escola transformou-se em amizade de famílias, abrangendo festas de aniversário, ajantarados domingueiros e até os natais, quando Sylvio aparecia nas nossas ceias e, com um discreto uísque na mão, fumava cigarros de palha com meu pai ou conversava com meu sobrinho Paulo Augusto, depois seu grande amigo e correspondente. A par desta leal amizade, crescia também o intercâmbio de idéias. Trazendo-me seus escritos para revisão, dava-me coragem para escrever também.

Forçava-me à discussão de teorias de arquitetura no geral, e da arquitetura brasileira em particular. Acabei perdendo a timidez de ex-aluna e discutíamos sobre todos os aspectos da arquitetura. Daí a colaborar com ele em trabalhos diversos como no levantamento e pesquisas da Capela de Nossa Senhora do Ó, em inúmeras conferências e artigos e, finalmente, no seu trabalho mais importante, embora pouco divulgado, "Mineiridade".



Escrito no exterior - em Lisboa e Paris – recebia aqui cópias xerox dos originais pelo correio. Fazia a revisão, rabiscava comentários nas margens, checava citações e devolvia tudo, via aérea, à Sylvio. As cartas eram quase semanais e as tenho guardadas, cheias de observações vivas e incluindo seus primeiros desenhos feitos em esferográfica. No meio disso tudo, Sylvio tinha planos de trocar nossas matérias na Escola (antes de ser aposentado) e deu-me quase um novo e mais completo curso de arquitetura brasileira, inclusive as fichas que fez para seu exame de cátedra.

Estas lembranças mais pessoais são evocadas agora para justificar muitas das opiniões que julgo poder dar sobre a personalidade de Sylvio como sobre suas obras já que vinte anos de amizade, de convivência e de correspondência dão um lastro de conhecimento e compreensão amplo e profundo, mesmo que - em diversos momentos - tenha discordado dele, a mais séria destas divergências tendo ocorrido em 76, quando estive em Washington, mas que foi superada posteriormente e que agora nem sequer conta.

Foi nas nossas muitas conversas que fiquei sabendo, por comentário do próprio Sylvio, de outras atividades suas na vida cultural de Belo Horizonte: suas metas como primeiro diretor do Museu de Arte da Pampulha, sua atuação em júris de arte e arquitetura (inclusive na Bienal de São Paulo), sua participação em bancas examinadoras de diversas universidades brasileiras, os convites para conferências e os temas que escolhia, os critérios determinantes de seus projetos e sua obsessão em conhecer, estudar e pesquisar a arquitetura colonial de Minas. Lembro-me de sua ida para Brasília, como coordenador do Curso de Arquitetura na época do Reitor Caio Benjamim Dias, quando discutimos extensamente os problemas da formação de arquitetos.

Recordo-me, igualmente, de suas estórias de restaurador e pesquisador, andando pelo interior de Minas a verificar os monumentos que levantaria, reformaria e estudaria para o IPHAN. E me lembro bem de sua atuação no Automóvel Clube, como diretor e presidente, além de freqüentador assíduo do famoso 4°andar, onde se discutia de tudo enquanto se jogava um carteado qualquer ou o bridge britânico, como o adjetivo que classificava o clube. De tudo participava Sylvio, em rodas variadas de amigos que ele cultivava com inteligência e sensibilidade; ainda se orgulhava de ser exímio dançarino e grande seresteiro, com violão afinado para as mais tradicionais músicas mineiras.

Seus projetos espalham-se em Belo Horizonte, muitos infelizmente desfigurados por reformas inadequadas. Em todos, porém, a marca de sua personalidade de arquiteto é evidente. Lembro-me bem quando dizia que os loteamentos usuais amesquinhavam as casas, apertadas em terrenos de dimensões mínimas.

Mas, nestes mesmos terrenos, lançava residências que sempre tinham uma parte que atravessava o lote transversalmente, vencendo a exigüidade das testadas. Era seu partido preferido, que agenciava um jardim interno, privativo da família. As soluções variam, naturalmente, mas há que notar a persistência de seu partido básico e extremamente funcional.

Dentro deste esquema foram projetadas as residências do próprio Sylvio (Cidade Jardim), de Rodrigo Otávio Coutinho (Lourdes), e Délcio Martins ( Sto Agostinho) bem como várias casas de jornalistas (no Sto. Agostinho) e outras na Serra. Em esquemas semelhantes, porém menos contidos, estão as residências de Caio Benjamim Dias, Gabriel Andrade e Gilberto Faria, na Cidade Jardim, cujos terrenos mais amplos ensejaram composições de maior liberdade ainda que referenciadas às características de Sylvio. Plasticamente, Sylvio resolvia seus projetos em blocos bem definidos que se justapunham em saudável equilíbrio, usava cores discretas mas seguramente e gostava de inventar formas novas para os elementos estruturais, como se pode notar nas residências Caio B. Dias e Gabriel Andrade, principalmente.

Os vãos se distribuíam em proporções elegantes e muito semelhantes às dos sobrados coloniais que lhe eram tão familiares e queridos. Além de inúmeras outras residências, Sylvio projetou a Capela do Colégio Izabela Hendrix, as sedes do DCE (rua Gonçalves Dias) e do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e o edifício de apartamentos da Praça da Liberdade, popularmente conhecido como "Xodó" (pelo nome da lanchonete no térreo) e onde ele foi meu vizinho por algum tempo.

Também é de sua autoria o monumento ao Aleijadinho, na frente da Reitoria da UFMG, no campus da Pampulha. É uma interessantíssima concepção plástica de grande movimento que lembra bem as curvas barrocas do grande mestre mineiro do século XVIII.

Seus trabalhos escritos multiplicam-se na constante colaboração com os principais jornais brasileiros, não só o "Estado de Minas" como "O Estado de São Paulo" e o "Jornal do Brasil", além de ter sido comentarista esportivo de um jornal paulista, certamente por seu grande amor ao Atlético. Alguns de seus escritos (os mais antigos) foram reunidos no livro "Noções de Arquitetura", publicado pela EAUFMG no início de 1960. Mas há muitas e muitas crônicas publicadas posteriormente e que agora estão sendo organizadas para publicação. De sua época na Escola de Arquitetura, são seus principais trabalhos :

 "Arquitetura Particular em Vila Rica", tese de concurso reeditada em São Paulo, e que é magnífico estudo sobre a evolução das casas mineiras. E há o já citado "Nossa Senhora do Ó", completo levantamento iconográfico e histórico da mais ramosa capela mineira, em Sabará. Também importantes trabalhos são "Pintura Mineira e outros Temas", cujos ensaios se destacam pela originalidade das observações e abordagens e "Arquitetura no Brasil: Sistemas Construtivos", inicialmente publicado na revista "Arquitetura e Engenharia" e do qual quatro edições da EAUFMG se esgotaram, sendo agora reeditado pelo Curso de Especialização em Restauração e Conservação de Monumentos e Conjuntos Históricos", com novas ilustrações e fotos, bem como revisão e notas de minha autoria, por autorização escrita de Sylvio, obra indispensável para o entendimento completo da arquitetura mineira e suas características construtivas. Não se pode esquecer, tão pouco, o pequeno e precioso "Arquitetura: Dois Estudos", publicado pelo Instituto Nacional do Livro, em Porto Alegre, que analisa tanto a arquitetura colonial como a moderna em teses da maior validade, tratadas com a típica objetividade de Sylvio. A cuidada edição de "Minas: Cidades Barrocas", feita em convênio com a Universidade de S. Paulo e com ilustrações de Renée Lebfèvre, tem, certamente, as mais belas e inspiradas crônicas de Sylvio sobre as cidades que tão bem conhecia e tanto amava. Pois só quem muito conhece e muito amou as cidades s barrocas de Minas poderia - como ele - descrevê-las em linguagem fluente e de fácil entendimento para o leigo mas, ao mesmo tempo, com tanto romantismo e poesia na caracterização arquitetônica de cada uma. Premiado na Bienal do Livro de São Paulo, este é um trabalho muito especial de Sylvio. Como importantíssimo é o seu "Mineiridade – Ensaio de Caracterização", em que Minas é estudada com carinhosa ternura e objetivo espírito analítico. Através da arquitetura, em síntese que só a cultura e a vivência de Sylvio poderiam produzir, as características sociais, econômicas, históricas e políticas das Minas são examinadas e sintetizadas com riqueza de exemplos e profunda erudição que não cansam mas, pelo contrário, incitam o leitor a refletir e a ponderar com ele. Será lançado agora, em São Paulo, seu livro póstumo sobre o Aleijadinho, que aguardamos como outra obra marcante de seu conhecimento e seu amor à Minas. E isto sem falar no pequeno mas essencial "Vocabulário Arquitetônico" e nos artigos que escreveu para publicações internacionais como o Boletim da Universidade da Venezuela e a revista "Américas", da OEA, entre outras. Ou, ainda, o magistral trabalho sobre a formação de cidades mineiras que marcou sua presença no "Primeiro Seminário de Estudos Mineiros" da UFMG.

Urge organizar - e quem sabe possa fazê-lo em breve - uma bibliografia completa de Sylvio e que inclua, também, uma análise mais ampla de sua obra arquitetônica e de sua filosofia. Que ele soube resumir muito bem nas cartas que escrevia, como em uma que tenho, datada de Paris, em abril de 1965 : "Costumo dizer, tirando da Bíblia, há que dar testemunho de nós mesmos nesta vida", E melhor nem mais belo poderia ser o testemunho que o próprio Sylvio nos deu - seu humanismo, em suas múltiplas atividades culturais, sua personalidade rica ainda que contraditória, seu amor à Minas - e do qual tive a imensa sorte de, por duas décadas, poder participar.



Fotos : Sylvio de Vasconcellos
Obras :
Jeferolla/Hjteixeira


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