Casa do Baile

NIEMEYER, 1940 …“E A MARQUISE DA CASA DO BAILE A CONTORNAR SINUOSA AS MARGENS DA PEQUENA ILHA”.
Sylvio E. de Podestá,
aprendiz de arquiteto

Esta Casa do Baile sempre pareceu uma irmã menor daquelas outras filhas de Niemeyer criadas para as altas rodas, para o jogo, para o esporte aquático e para a reza. mas, se não contém todo o discurso teórico das outras, tem uma graça sinuosa que nenhuma tem.

Sua pequenez, sua ilhazinha com ponte bucólica, sua solidão e utilidade atual não esconde sua função inicial: local para bailar,

Não muitos. poucos, de forma a sobrar espaço para o rodopio, para as mesuras e, antes ainda, para ver e ser vista a dama. já o cavalheiro, levemente encostado no balcão, é dali amaciado pelas paredes sem quinas, pelo taco espinha de peixe e pela vista da marquise que sugere seus passos de dança.

Sabemos, e não importa, que tudo ali foi criado artificialmente: a ilha, cavando o fosso e separando-a do continente; o salão com bar e sanitários que tem dificuldade de obter água pois a caixa d’água no teto modificaria sua forma inicial e a marquise que só depois de desenhada delimitou as margens da ilha. falso e belo.

Quem diabo poderia ter esta idéia de uma casa para o baile? O presidente de Diamantina com sua fama de boêmio seresteiro ou o arquiteto que, segundo Darcy Ribeiro, “trabalha como um operário, ou muito mais, porque até dormindo, Oscar desenha nos seus sonhos”. e mais: “… a percepção, impensável antes dele, de que a única função de um edifício, a única importante – aquela que o fará durar através dos séculos – é a beleza”.

Esta casa é isto, bela. meio gata borralheira, escondida atrás de um certo descaso, mas bela para olhares sábios. aí está a mágica da arquitetura, tirar beleza de uma lata de parquetina e de uma longa língua toda espetada de palitos. Dramática analogia mas é no drama que se descobre a vida, a paixão e apaixonadamente devemos admira-la, assim meio de longe, sem aquelas cadeiras de plástico branco ou marcas de refrigerantes em placas acrílicas, porque hoje ninguém dança na casa do baile.

Não é necessário, ela dança.

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