Pampulha 13 – memória

 

NÚCLEO BÁSICO DE DESIGN

A partir de seu número 5, Pampulha passou a trazer um novo caderno, assinado pelo Núcleo Básico de Design. Nele, passaram a ser discutidos questões de interesse da área, através da geração e promoção de iniciativas que visavam divulgar o Desenho Industrial, coletor, acumular e disseminar informações técnicas, para complementar a formação do designer, além de vários outros objetivos – que eram os mesmos do próprio Núcleo.

Neste sentido, o Núcleo tinha um caráter quase didático.

Mas não perdia seu bom humor. Sob o título “Anemia Colorida (1)”, e uma citação de Oswald de Andrade, avisava do Inglês, anda(ndo) de Volks e Monda, insistia em esquecer o Jequitinhonha, o Amazonas, a Favela, exibindo seu(s) PHDs estrangeiramente caricaturados em Camisas Curtas e Gravatas”. E perguntava; “Afinal, o que teria o Desenhista Industrial o ver com isso?”

 

nucleo basico de design

Mesmo sem responder diretamente, o Núcleo sabia rigorosamente o que o designer “tinha a ver com isso”, tanto que discutia ergonomia, fazendo questão de esclarecer o assunto, alertando para as interpretações errôneas que se davam à matéria. E enumerava algumas definições dadas por não iniciados, que achavam ser a ergonomia parte da economia que estuda o fator trabalho, ou um ramo da agronomia…

E denunciava os batentes dos ônibus mais altos do que podiam levantar as pernas mulheres de saias e idosos, os capacetes dos operários, maiores do que suas cabeças (consequência das matrizes importados), os fogões que requerem um esforço sobre-humano para serem acesos, particularmente com as mãos molhadas – e isso sem falar nos deficientes físicos, como os paraplégicos, que simplesmente não podem “circular pelas nossas calçadas”, freqüentar os banheiros, subir escadas rolantes etc. etc. etc.

Mas um P. S., colocado ao fim de um outro artigo (“Anemia Colorida Menos 1 – resposta ao leitor”), dá a dimensão exato das preocupações do Núcleo, ao discutir de maneira provocativa as instituições, e o crença de que a felicidade pode ser vivida no próprio trabalho. Diz o P. S. do artigo escrito por Cadinho para dois amigos – um sociólogo, outro designer:

“Diga ao Eustáquio Lobato que ele fez muito bem. A Universidade não detém conhecimento algum, filha que é de pais-ricos, sempre evitou contato com a ralé. Fale ao João Delphino, que precisamos preparar uma CUSPARADA CULTURAL, grande o suficiente para que possa ser devolvido ao homem o direito de participar na satisfação de seus desejos.”

MEIO AMBIENTE – LAGOA DA PAMPULHA/GRUTAS

Em 1982, a revista faz um alerta dramático: “A Pampulha vai acabar”. Não se referia ao fim da publicação, mas sim ao estado de abandono em que se encontrava a Lagoa, um dos principais cartões postais de Belo Horizonte. Os arquitetos do IAB relataram a situação ambiental da Pampulha, apontaram os responsáveis e exigiram medidas de saneamento.

De acordo com a matéria, desde 1972 a degradação do local já era conhecida e constava de relatórios técnicos. Recebendo continuamente esgotos dos córregos Ressaca e Sarandi, além daqueles vindos da Estação de Tratamento de Esgotos do bairro São José, a tendência de agravamento do problema se apresentava como iminente: sinais de falta de oxigênio nas águas, sobretudo a partir dos 4,5 metros de profundidade e alta concentração de substâncias químicas, causadoras de turbidez da Lagoa, compunham um quadro de alto risco sanitário.

Cientes da impossibilidade de reversão da situação aos moldes dos anos 40, os arquitetos propuseram soluções amenizadoras e medidas preventivas, como estas:

– Uso de filtros biológicos, iodo ativado, precipitação química ou tanques sépticos para tratar efluentes industriais na sua origem;

– Controle de afluxo de sedimentos que causavam assoreamento da Lagoa, através da construção de barragens de contenção;

– Exigência de avaliação de impacto ambiental como condição inarredável, tanto para a instalação de indústrias como para vendo de loteamentos na bacia da Lagoa;

– Implementação da lei de uso do solo, ficando os parcelamentos urbanos nas áreas de drenagem de lagoas e represas “obrigados a apresentar projeto de controle de sedimentos e erosão por eles causados, sendo os seus proprietários responsáveis pela implantação das obras de contenção de acordo com o projeto aprovado nos organismos ambientais competentes;

– Atribuição de responsabilidade financeira aos causadores de danos ambientais: quem polui, paga.

Além do diagnóstico da situação ambiental da lagoa da Pampulha, os arquitetos exigiam um posicionamento mais incisivo da imprensa e do poder público, até então visivelmente comprometidos com interesses particulares e pouco atuantes no sentido de alterar os fatos. Apresentaram ainda diretrizes para o ano de 1983, com o objetivo de evitar o aumento da deterioração da Lagoa e promover a paralisação dos danos já ocorridos. Pediam, também, a urgente revitalização do conjunto arquitetônico da região.

O artigo lembrava que não só a Pampulha, mas outras lagoas mineiras corriam o risco de extinção. A poluição por resíduos industriais e a ocupação descontrolado das bacias afetavam Vargem das Flores, Lagoa Grande, Miguelão, Lagoa Santa, João Penido (Juiz de Fora), Serra Azul (Igarapé), Sumidouro e Confins (Lagoa Santa) e Três Mortas.

Na mesma edição de Pampulha, onde este texto foi publicado, o então deputado Gil César Moreira de Abreu, à época presidente da Comissão de Assuntos Municipais e Planejamentos Regionais, concordava com o diagnóstico dado e anunciava investimentos da ordem de 15% do orçamento do município de Belo Horizonte para o ano de 1984, com o
objetivo de solucionar os problemas da Lagoa.

Dentro da temática ambiental, Pampulha deu também espaço aos membros do Grupo Bambuï de Pesquisas Espeleológicas, criado em Belo Horizonte em 1983. O nome do grupo se referia a Bambuí, região privilegiada em termos de grutas e reconhecida mundialmente, que se estende desde Lagoa Santa até o Norte da Bahia.

Descrevendo o grande fascínio há muito exercido pelas cavernas sobre o homem, que desde eras remotas as utilizou em busco de abrigo (e nelas deixou importantes e belos registros artísticos), o grupo aproveitava o espaço da revista para chamar o atenção para a falta de conservação e respeito pelas cavernas.

Diferentemente daqueles que compreendem o valor científico e turístico das cavernas, a exemplo de Eduard Martel, fundador da espeleologia, e Peter Lund, naturalista dinamarquês que explorou cerca de 200 grutas na região de Lagoa Santa, muitos concorrem para a destruição destes locais.

O espírito conservacionista está ausente em grande parte dos visitantes, que depredam os espeleotemas e deixam suas marcas pessoais nas grutas. Além disso, há ainda a ação inescrupulosa das companhias mineradoras que, em busca do calcário para a produção do cimento, “explodem e lavram maciços calcários inteiros, destruindo inúmeras cavernas sem
se preocupar com seu possível valor científico-cultural”.

Reconhecendo a importância da atividade mineradora, o grupo reclama por critérios racionais de exploração e leis regulamentadoras da atividade. Lembra ainda a necessidade de conscientização da população sobre o valor de nossas grutas e a importância da divulgação e estímulo às pesquisas espeleológicas. Isso ajudaria q manter as cavernas mineiras que, como Lapa Nova em Vazante ou a gruta do Janelão em Januário, se incluem entre as mais belas do mundo. Somente estas medidas tornariam possível evitar para as grutas o triste destino de Lapa Vermelha (Lagoa Santa), caverna pesquisada por Lund, dona de riquíssimos depósitos de fósseis e vestígios antropológicos, totalmente destruída anos atrás.

A revista divulgou, também, projeto do Setor de Arqueologia da UFMG, que visava o levantamento e pesquisa do acervo da arte rupestre no Vale Médio do São Francisco. Os pesquisadores pretendiam estabelecer uma relação entre a arte e os vestígios materiais que refletem parte da vida diária das populações pré-históricas. Queriam também estudar as categorias estilísticos, sua ordem de organização e evolução no tempo e, sobretudo, sua correlação com os achados arqueológicos. Segundo os pesquisadores, “a presença de corantes minerais, placas e blocos com vestígios de pintura e gravação associadas à cerâmica, o objetos de pedra lascada e carvões, num mesmo nível arqueológico, oferecem a possibilidade de efetuar futuras dotações radiocarbônicas a partir do carvão nas fogueiras. Enquanto se espera o resultado dos laboratórios especializados em dotações pelo método carbono 14, podemos aventar estimativas cronológicas através de comparações com outros sítios que apresentam material semelhante e Já foram datados por esse método.

Dessa forma, pode-se supor que o período de atividade pictural dos sítios tenha se iniciado há 9.000 anos, com grupos de caçadores coletores e continuado por grupos de agricultores ceramistas até quase a chegada dos europeus”.

A partir das primeiras observações realizadas no local de estudo, os pesquisadores informavam sobre a discriminação de uma unidade estilística e cronológica. De acordo com eles, as figuras animais antigos e freqüentes pertenciam à chamada “Tradição São Francisco”, caracterizada pela predominância de figuras bi ou policiônicos. A temática dominante era composta por figuras geométricas, seguidas de representações naturalistas (animais, vegetais, figuras humanas e objetos). Encontrou-se ainda figuras pora-naturalistas (representações estilizadas de sóis, luas, estrelas, pés. mãos) e gravações (figuras de baixo relevo), apresentando a mesma temática das pinturas, porém menos variada.

Em outra matéria, publicada paralelamente à tramitação do Congresso Nacional da “Lei do Uso do Solo Urbano” (1983), o arquiteto Sérgio Machado fazia nas páginas da Pampulha algumas considerações sobre o espaço urbano, particularmente a respeito da maneira como este se desenhava em Belo Horizonte. Para o autor do texto, ao entrar na sua terceira geração de edifícios, a cidade vivenciava um desastre ecológico “maior que a violentação da Serra do Curral”. A destruição de patrimônios reais da comunidade pelo zoneamento (Cine Metrópole, rua Padre Severino, rua Outono, colina do Pindura Saia, encosta oeste do Carmo/Anchieta, dentre outros), locais possuidores de “grande quantidades ambientais e lúdicas, não conseguia emocionar os habitantes da cidade. Desta forma ia se perdendo a escala e o significado do espaço público, o que se agravava com a alta densidade habitacional e a conseqüente precariedade das condições ambientais das moradias para a maioria da população.”

Segundo Sérgio Machado, somente uma regulamentação de assentamentos mais conseqüente seria capaz de melhorar a situação da cidade. E esta iniciativa deveria partir dos arquitetos que, com sua potencialidade, poderiam contribuir para evitar a deterioração e a “morte do centro das metrópoles”. Pensando sobre uma questão que ainda hoje se faz presente em nossa cidade (expressa nas atuais discussões sobre a revitalização da área central da cidade e a preservação da Serra do Curral, por exemplo) o arquiteto conclui:

“Cabe então (sempre cabe) uma visão mais abrangente da questão do solo urbano, que leve em consideração a arquitetura e a necessidade de dotar os arquitetos de instrumentos mais efetivos para a evolução do seu fazer. Ao mesmo tempo, é preciso fortalecer o corpo teórico da disciplino

(…) além de ampliar nossos posicionamentos de classe (…) muitos vezes carentes de um pensamento arquitetônico mais consistente. Outro dia, numa conversa com Niemeyer, ele nos dizia mais ou menos o seguinte: ‘…não acredito que se deva construir casas para os pobres nas favelas das periferias. Devemos sim, pensar em trazê-los paro nosso convívio, gozando os benefícios das cidades. Com os espaços que vamos lhes deixar, é melhor talvez que fiquem por lá”.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *