Pampulha 13 – memória

LÚCIO COSTA

Ao longo de sua entrevista. Lúcio Costa fala de aprendizagem, amor ao conhecimento, intolerância, arquitetura moderna, companheiros de viagem, limitações, incompreensões. De forma quase lírico, conta as suas experiências profissionais e sua concepção do “fazer arquitetura”. Como no trecho em que fala do artista/arquiteto:

“Ponhamos… os pontos nos ii. É livre a arte, livre são os artistas. A receptividade deles é porém tão grande quanto a própria liberdade: apenas estoura distante um petardo de festim e logo se arrepiam, tontos de emoção. Esta dupla verdade esclarece muita coisa. Assim, todas as vezes que uma grande idéia acorde um pouco, ou melhor ainda, porte da humanidade, senão, propriamente, o humanidade toda, os artistas independente de qualquer coação, inconscientemente quase, e precisamente porque são artistas, captam esta vibração coletiva e a condensam naquilo que se convencionou chamar obra de arte, seja esta de que espécie for.”

Rememorando a sua trajetória profissional. Lúcio Costa conta um pouco da história do movimento da arquitetura moderna, de sua relação com a conjuntura política nacional, reminiscências pessoais e particulares.

A sua passagem pela Escola Nacional de Belas Artes, a convite de Rodrigo de Melo Franco, após a Revolução de 1930, dentro do novo projeto político para o Ministério da Educação; o seu contato com o “movimento moderno, as idéias de Corbusier”, que lhe traz um “constrangimento em fazer… arquitetura eclética”.

Conta, ainda, que conhece Gregori Warchavchik “através da revista Para Todos, que publicou fotografias de uma casa feita por ele em São Paulo. Quando diretor da Escola, convidei-o para dar aulas. Ele estava construindo uma casa no rua Toneleros não queria aceitar, tinha as obras, só poderia estar no Rio nos dias em que visitava as obras; eu disse ‘esta bem!’, e ele dava umas duas aulas nos fins de semana”.

A sua experiência como diretor termina, e ele se associa a Warchacvchik, abrindo uma empresa de projetos, mas contam com a resistência da sociedade brasileira a nova proposta de arquitetura que oferecem.

Fechada a empresa – que duraria mais ou menos dois anos – aumentariam as suas dificuldades profissionais: “Depois foram três anos bem difíceis, porque ai estava numa situação que não conseguia mais fazer o velha arquitetura, uma arquitetura que dominava. Fiquei conhecido como arquiteto acadêmico, eclético, e não conseguia, não queria. Eu queria fazer uma arquitetura a moda das novas normas arquitetônicas e, como todo novo crente, era tido como muito intransigente; o resultado é que passei um período de miséria, quase não tinha dinheiro, ganhava mal… até que um dia telefonou Manuel Bandeira, dizendo que o Capanema queria me ver, e aí começaram os problemas de construção do Ministério da Educação. Essa história é conhecida, o Drummond conta, vocês leram lá, está tudo conforme a lembrança que eu tinha dos fatos, no artigo Relato Pessoal, no primeiro número da segunda fase da Módulo (n° 40).”

Seu contato com as normas, com Le Corbusier, por exemplo, se deu no período em que ocupou a direção da Escola Nacional de Belas Artes, e seu fascínio por ele continua: “A personalidade da obra de Corbusier era abrangente, ao passo que os outros todos. Mies Van der Rohe, Gropius, todos os outros, eram arquitetos, cada um dava o seu recado de acordo com sua lição pessoal. Todos contribuíram com elegâncias de solução, com aquele acumulo de tecnologia, modernamente metálica. Mas Corbusier não. Era coisa bem diferente, apaixonante, ele com aquela facilidade de expressão que tinha, extraordinária, as conferências dele eram fantásticas, sempre com casa cheia, um entusiasmo contagiante. Agora, quando ficam esnobando a obra dele, é um absurdo. Falemos daquela fase puritana de sua arquitetura; você examinando a obra dele vê que houve um período purista, digamos, no sentido da nova tecnologia. Aquela fase toda das casas, até o Ministério da Educação, de uma arquitetura muito apurada, mais despojada, muito racionalista. Mas depois da Guerra, passou a fazer outra coisa. Exemplo admirável é a Capela de Ronchamps. Parece, à primeira vista, que está dando as costas a tudo o que fez antes. É a maneiro de conceber e dispor o espaço, uma arquitetura dinâmica, aparentemente outra concepção, mas com a mesma força que ele imprimia o tudo o que fazia.”

Dando suas impressões sobre a história da arquitetura, Lúcio Costa chega até Oscar Niemeyer e o uso audacioso do concreto: “Me lembro que Marselle assustou muito depois da Guerra. Nós, arquitetos, estávamos habituados aquele tipo de quartinho de vila, aquela arquitetura assim magra, suportes delgados. De repente, aquela arquitetura nova, brutalista como chamada na Inglaterra. Este brutalismo virou moda, concreto aparentemente ousado, com certo excesso, não exatamente estrutural. O brutalismo era mais uma ostentação, uma (coisa) de presença excessiva. Outra corrente, a erudita, digamos, usa o concreto de forma mais delgada, elegante e leve, exigindo mais das possibilidades de armação, aumentando a proporção de ferragem, e aí o Oscar leva ao extremo, quer forçar, levar essa solicitação de esforços a um limite máximo. Como sempre é possível, o sujeito consegue, mas fica aquela quantidade de ferros, as vezes mal dá pra jogar o concreto: ferragem a milaneza. É solicitação demais, compreende? É para dar depois aquela sensação de suspenso livre, coisa que ele gosta mas exige demais da estrutura, ele força.”

Sobre suas visitas a Minas, Lúcio Costa fala de Diamantina, Ouro Preto, o Colégio do Caraça – onde se hospedou por quarenta dias para se recuperar de problemas de saúde -. De encontros e desencontros com a arquitetura, de preservação, de barroco.

Ampliando seu olhar, porte de uma questão colocada pela Pampulha sobre a existência da arquitetura brasileira. E afirma;

“Não existe arquitetura brasileira agora, existe arquitetura internacional, das revistas inglesas, americanos. A arquitetura é como um comboio, e a brasileira é um vagão junto com outros. Depois da Guerra, ela tomou ares de locomotiva. Compreende? Porque o que se fazia no Brasil naquela época era a coisa mais interessante para ser vista: ninguém fazia propaganda, ninguém pedia favor, eram as próprias revistas estrangeiras que publicavam aquelas coisas. De modo que houve uma espécie de sonho, um período que se desfez.”

Os entrevistadores, lembrando Groeff (1969), perguntam sobre a maneira singela do arquiteto brasileiro apresentar seus projetos, inclusive mencionando o simplicidade de apresentação do Plano Piloto de Brasília, por ele e Niemeyer.

“Foi uma coisa involuntária. Não pretendia participar do concurso, não tinha intenções. (…) (Brasília) tem uma vida assim um tanto provinciana às vezes, é normal, mas tem presença de Capital, uma intenção de nobreza, dignidade, aquela generosidade dos espaços, aquela coisa toda. Isso é que caracterizou Brasília como uma coisa à parte das cidades, mas não é exemplo para se projetor outra cidade no Brasil. Com exceção daquelas proposições das quadras, que acho uma coisa valida.

(…) Se o arquiteto é bem formado, com sentimento de brasileiro, natural, sem afetação (tudo o que é brasileiro está bem imbuído do simples, seja mineiro, paulista, nordestino, carioca), evidentemente, a solução que se der aos programas será uma solução interessante, e com o correr do tempo se tornará nativo. Mas é difícil, né? Porque realmente os arquitetos são estimulados para serem gênios, para inventar. Então, o sujeito foi inventando demais, o próprio Oscar foi culpado disso. (…)

Brasília hoje é uma cidade adulta, eu não posso pretender criticá-la se não vou lá, não participo. Teria obrigação de ir lá, permanentemente, para poder reclamar de alguma coisa, mas não vou, e é natural que a cidade tenha a sua vida. Mas apesar de tudo, o que sobrou me satisfaz.”

 

lucio costa alvaro hardy

(01) Pampulha n° 1, 79, p. 12-19, “Lúcio Costa”.

Participaram dos entrevistas Álvaro (Veveco) Hardy, Éolo Maía, José Eduardo Ferolla, Maurício Andrés, Paulo Laender.

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