Pampulha 13 – memória

OSCAR NIEMEYER

Em 1979, Oscar Niemeyer presenteou a Pampulha com um precioso depoimento sobre os rumos do arquitetura no país. Entre outras coisas, já chamava a atenção para uma espécie de arquitetura repetitiva e indiferente à beleza que vinha sendo feita.

Grandes espaços livres, vãos maiores, fachadas de vidro, muito se modifica, nos anos 20, a partir dos novos conceitos criados e da utilização da técnica do concreto armado: tudo apontava na direção de um vocabulário plástico mais rico e imprevisível: surgia a arquitetura contemporânea. No entanto, lembra Niemeyer, “nado disso aconteceu. Retilínea e limitadora. como que nascida de Bauhaus – ‘o paraíso da mediocridade’, como dizia Le Corbusier – a nova arquitetura estabeleceu a priori seus dogmas e princípios e com eles se perdeu na repetição e na monotonia”.

Tratava-se de uma outra faceta do funcionalismo, em que se elaborava uma arquitetura de dentro para fora “como se fosse apenas um resultado e não a procura da criação e da beleza na arte de construir”.

 

Com as devidas exceções, os arquitetos se adaptaram a novo ordem, afastando-se de formas e formatos que pudessem representar períodos superados e fazendo multiplicar os grandes prédios “vulgares de tão repetidos, incapazes de despertar atenção e entusiasmo”.

O projeto da lagoa da Pampulha viria representar exatamente uma contestação a tudo isso, buscando o resgate de uma arquitetura mais livre, belo e imprevisível. “Não é a linha reta que me atrai: dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva leve e sensual, a curva que encontramos nas montanhas do meu país, no curso sinuoso de seus rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida”, desabafa Niemeyer. Este foi o espírito do realização da capela de São Francisco e da marquise da Casa do Baile: as curvas, sobretudo elas, o atraíam.

Inicialmente um sucesso, a Pampulha viria mais tarde alarmar aqueles a quem a repetição funcionalista de fórmulas agradava. Mas ela abriu caminhos e sua forma nova viria, irrecusavelmente, influenciar a arquitetura destes e de outros continentes.

Brasília veio representar o desejo de uma arquitetura onde beleza e leveza importavam mais do que soluções simples. Reduziram-se apoios, seções de colunas, lajes e vigas e dava-se lugar aos arcos, abóbadas, cascos de concreto e superfícies finas.

Eram a leveza e a liberdade mesmas que teriam dado a nossa arquitetura “o aspecto próprio e característico que hoje apresenta, afastando-a, inclusive, da obra de Le Corbusier, voltada para a forma robusta (…). Já não era a forma livre e variada que me bastava”, prossegue Niemeyer; “queria quando possível – que meus projetos exprimissem o progresso da técnica e da engenharia em meu país”.

Foi diante dos Palácios dos Doges, em Veneza, observando o contraste entre suas colunas trabalhadas e a parede lisa que suportam, que Niemeyer expressou seu desejo de mostrar que “toda a forma que na arquitetura cria beleza, tem uma função definida”, ou seja, não há porque se criticar as formas requintadas que o concreto permite quando são aceitas com entusiasmo em outros períodos históricos.

A beleza da arquitetura de que nos falo Niemeyer não se restringe, entretanto, ao momento de criação do projeto: é preciso não perder de vista o aspecto social da arquitetura. Ele acredita que só a mudança social garantirá o conteúdo humano desejado a arquitetura: “a arquitetura mais ‘simples’,’despojada’, como alguns sugerem, denuncia apenas a desinformação e oportunismo”. É preciso a mudança para que os programas arquiteturais deixem de ser alheios a imensa miséria que nos cerca.

 

 

JAIME LERNER

 

jaime lerner

Em 80, a equipe da Pampulha entrevistava Jaime Lerner, um arquiteto que, de modo incomum no país, chegou ao poder militando politicamente, através da arquitetura. Hoje, Lerner é uma figura bastante respeitada no universo político por suas administrações bem sucedidas em Curitiba.

Na ocasião, Lerner já apontava a deterioração pelo qual passava Belo Horizonte. Mas denunciando como quem dá um passo em direção a conscientização, acreditava na capacidade que as cidades têm, quando instigadas, de encontrar soluções próprias para seus problemas.

O projeto político permite que se criem e se proponham ações fundamentais para o pais, mas independente da política, o arquiteto tem condições de defender propostas; afinal, o arquiteto é o profissional da proposta, que é mais importante até mesmo que os recursos. Com propostas na mão, busca-se recursos.

Tendo trabalhado em diferentes cidades do Brasil e do exterior, Lerner teve várias dificuldades em executar suas propostas. Há cidades onde o direito da idéia não é tão caro como um projeto de arquitetura. “Você pode, por exemplo, acionar, executar, apresentar umas trinta propostas e às vezes uma só é executada, e porcamente diferente daquilo que você pensou”. As experiências internacionais, disse Lerner, não diferem muito em termos de participação da comunidade. O movimento de comunidade lá existente (nos Estados Unidos, por exemplo) é de defesa de uma minoria. O ideal, segundo ele, é tentar buscar a defesa dos direitos da maioria.

Quanto aos problemas da cidade, Lerner acredita que o primeiro passo na tentativa de sua resolução deve ser a recuperação de valores que faziam com que a cidade fosse a integração de funções. “Acontecia tudo: moradia, trabalho, tudo junto, continuado. O transporte era um elemento de ligação. (…) Todos estes valores faziam com que as cidades fossem humanas”.

A rua tradicional ainda é a melhor invenção: nela, você podia andar, era o lazer. Mesmo o uso do transporte era uma forma de identificação com a cidade.

Hoje, afirma Lerner, “as cidades vivem uma concepção errônea da Carta de Atenas, que ninguém entendeu, nem os coras que a escreveram. Habitar, trabalhar, circular, recrear, tudo bem – mas separar tudo isso foi um desastre”.

• As cidades devem buscar, basicamente, dominar suas individualidades, como por exemplo a solução para o transporte coletivo de Curitiba. Ele é de superfície não por ser mais barato, mas também por ser a solução que mais integrou os moradores. É muito importante que as funções se misturem na cidade.

Na ocasião, Lerner apontava também a importância exagerada dada ao automóvel pêlos planejadores e sobre isso afirmava; “Uma coisa é importante a gente aprender: quanto menos importância se der ao automóvel, melhor se resolve o problema da cidade, inclusive o do automóvel”.

A questão do memória das cidades poderia ser melhor resolvida com a criação de legislação própria. É preciso que haja, por parte da administração, um “aconselhamento” para quem deseja construir. É possível conciliar aquilo que é histórico com o novo.

A cidade tem como função básica o encontro das pessoas: “Não é um negócio apenas poético, é tão bonito! A cidade é o cenário do encontro, é esta sua única e primordial função. Isso evidentemente independe do problema político, mas de criatividade”.

 

 

ADOLFO PEREZ ESQUIVEL

Humanismo e alienação: arquitetura, urbanismo, através do olhar de Adolfo Perez Esquivei. Doce momento, recuperado nesta entrevista, feita por Murilo Antunes e Álvaro (Veveco) Hardy , quando estávamos preocupados com q esperança, direitos humanos, paz, tolerância, “a arquitetura como integração do homem com a natureza”. Esquivei nos dando a medida de uma reflexão. Sobre as sociedades argentina e brasileira, centrada na preocupação com o ser humano e sua participação política paro a resolução dos graves problemas sociais. E as interferências que poderiam efetivar, neste processo, os arquitetos e
Urbanistas.

Na apresentação de Adolfo Perez Esquivei, feita por Murilo Antunes, recuperamos também amargamente uma das faces autoritárias da ditadura militar que nos governou de 1964/1984, o nacionalismo canhestro do Brasil, ame-o ou deixe-o.

“Esquivel é um homem obstinado e solidário, cristão e conselheiro, que amplia o sentido de um prêmio ao dedicá-lo às multidões menos favorecidas. Ele ganhou este Prêmio por sua atuação à frente do Serviço Paz e Justiça de Buenos Aires. No entanto, sua passagem pelo Brasil teve alguns atropelos nada pacíficos. Taxado pelo Ministro da Justiça como ‘turista’, foi aconselhado pelo mesmo a nado dizer, ou o não se intrometer nos assuntos de ordem política interna brasileira. Por ironia da razão. Esquivei foi convidado a vir ao nosso país exatamente por ter expressado em vários idiomas a sua preocupação quanto à paz mundial. Mais uma vez, a bruxa andou solta no Planalto e alguns senhores julgaram o Brasil incapaz de receber novas falas e o pensamento de um homem universal.”

E em suas conversas pelo país, ele se encontrou com D.Pedro Casaldáglia, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia: com camponeses, também em Goiás, foi-lhe encomendada “uma escultura ao ar livre de N. S. da Esperanço; com D. Hélder Câmara, no Recife, “dividiu seu prêmio mundial”.

Argentino, escultor e arquiteto, Adolfo Perez Esquivei concedeu uma entrevista a Pampulha divulgando sua concepção do mundo, uma leitura humanista das cidades, como no trecho em que fala sobre o profissional que não consegue ultrapassar os ditames da “especulação econômica”.

“Sem a verdadeira dimensão da arquitetura, a arquitetura mais além de um simples edifício; a arquitetura como integração do homem com a natureza; o urbanismo, realmente (pode) desenvolver uma sociedade onde o homem se sinta numa escala mais humana. (…)”

Utilizando o conceito de “macrópoles”. Ele discute a alienação do indivíduo morador da cidade versus o engajamento do cidadão num projeto humanista e racional para os espaços urbanos, explicitando, assim, sua vocação de político como “a busca do bem comum”. E diz: “(…) Vemos que as cidades crescem de forma irracional. É preciso ver que condições, através de cidadãos distintos, pode haver paro uma participação ativa no processo do governo, como buscar planos racionais de urbanização, de solução dos problemas. Para mim isto é também uma ação política, um desafio, que têm os profissionais, tanto os arquitetos como os sociólogos, os médicos… Creio que isso é todo um caminhar de ir somando esforços, porque sozinhos os arquitetos não vão fazer nada. O arquiteto, com toda a boa vontade que tenho, não vai poder solucionar o problema social, mas o fará na medida em que vá compreendendo e participando do problema que vive o povo. Que os médicos não fiquem somente nos sanatórios especulando para a Medicina; que os arquitetos não fiquem unicamente fechados, tratando de sobreviver frente à agressividade que vivem, porque o arquiteto a vive. Através de uma consciência social até o processo de democratização, temos que ver qual o cominho do arquiteto, qual o caminho dessa sociedade que queremos construir. (…)”.

Dentro dessa mentalidade, destaca o trabalho de Le Corbusier, ao dizer que “é importante resgatar Corbusier, um homem com grande ambição quando buscava as cidades radiantes, onde o homem tivesse seu centro de cultura, sua vida espiritual, seu lugar de trabalho por perto. Lê Corbusier é um missionário da Arquitetura.”

E através de suas observações de viagem, conclui introduzindo o conceito de “cidade orgânica”:

“Já estive em países europeus, principalmente os nórdicos, que têm planos muito racionais para toda a cidade. Sôo cidades orgânicas, porque a cidade é um ser vivo. Para mim, a cidade é um ser plenamente vivo e em constante mudança. É importante que, para que essas cidades vivam bem, os responsáveis pela arquitetura e urbanização, pela paisagem, possam lançar seus aportes para que essas cidades não adoeçam. Nós vivemos em cidades totalmente enfermas, anacrônicas, que não dão repostas às necessidades do homem atual. E isso é um desafio aos arquitetos, médicos, profissionais, sociólogos… Há experiências boas, como a cidade da índia, que Corbusier construiu. Também há outros tipos de cidade que não são, todavia, cidades, porque são comunidades, se entender o vasto sentido de comunidade: um lugar onde o homem busque sua identidade… senão, é impossível…”.

 

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