Pampulha 13 – memória

 

ARTE/DESIGN

A arte feita em cada região de Minas deságua em Belo Horizonte, capital do Estado. A síntese cultural que esta cidade vive, com os contistas, poetas, escultores do barro ou do metal, rock pauleira e músico sacra, a arquitetura do pau velho e do aço, sempre mereceu muito mais divulgação do que frequentemente recebeu.

Sem conhecer fica difícil gostar da cultura que se faz no Jequitinhonha, em Ouro Preto, Juiz de Fora ou no quarteirão da Afonso Pena que tem, frente a frente, o Escola de Música e o Palácio das Artes.

Hoje sabemos que para entrar no mundo, paro sermos universais, é preciso antes de qualquer coisa do nosso passaporte local. Para participar de um projeto global (político, ecológico, artístico etc.) devo antes participar daquele que acontece perto de mim, no lugar de onde venho.

A revista Pampulha, nos seus 12 números, se antecipou a esta tendência dos anos 90, estando atenta à arte, sobretudo o mineiro.

O belorizontino tem que gostar de BH, tem que estar junto para que a cidade seja belo, generosa e alegre, pensaram seus editores – e como não gostar de um espaço que recebe a arte de Amilcar de Castro. GTO e Uakti. tão diversas mas igualmente nosso?

O que a turma da Pampulha queria, na verdade, era que, através de suas matérias, o pessoal de Belo Horizonte pudesse “botar banca” aqui, no Rio. em São Paulo. Novo Iorque, Tóquio, Itaobim…

 

GRAFFITI – Guido Rocha

Quando, nos anos 80, o graffiti tomava os muros dos grandes centros urbanos do país, Guido Rocha, um de seus pesquisadores mais apaixonados, falava à Pampulha dessa nova/velha forma de expressão. Passada uma década, o paisagem urbana permanece fortemente marcada por esta linguagem em códigos e formatos sofisticados ainda.

Reler o texto de Guido suscita-nos um olhar mais demorado sobre a cidade, uma reflexão sobre aquilo que a paisagem urbana está a nos dizer.

A invenção do spray deu ao graffiti uma nova cora: facilitou o acesso à linguagem dos muros e, ainda, dificultou a remoção das mensagens. Mas não é só. Nos anos 60, o spray aparece no curso de uma intensa crise social e política passando, de certa forma, a representá-la nas suas diferentes facetas; a crise das classes médias urbanas, o crise do poder central e a crise do universo simbólico da civilização ocidental.

AS 3 CRISES.

Num cenário de descontentamento geral de uma classe média dividida entre maiores chances de consumo e ameaça do poço do sub-consumo, o spray surge como um instrumento adequado de expressão deste segmento.

Além disso, os sistemas políticos e sociais mostravam-se incapazes de manter sua congruência. “No mundo capitalista”. lembrava Rocha, “o sistema econômico evidenciava o inicio de uma crise sem precedentes, prenunciando a necessidade de planificação econômica para controlar a anarquia da produção. No mundo socialista, a tendência à formação e reprodução de uma casta burocrática bloqueava a possibilidade de uma planificação democrática”.

No nível simbólico, o uso do spray estaria constituindo-se num instrumento de substituição do poder autocrático do pai pelo poder dos jovens, possibilitando a cada um uma parcela de poder.

Nos anos 70, a utopia parece cada vez mais distante com a reafirmação dos poderes autoritários. O spray cai em desuso, sendo considerado um objeto de mau gosto.

Nos anos 80, a reentrada do spray em cena pareceu sugerir o resgate da utopia democrática, mas estaria de fato, diz Rocha, expressando uma “fantasia infantil da classe média que se precipito no sub-consumo”. Naquele momento, predominava o universo simbólico das histórias em quadrinhos, dos personagens míticos, das fantasias.

Enquanto os outdoors passam a exibir as promessas de gozo e felicidade consumistas, os graffitis vêm contrapor o eles seu discurso “bilateral e democrático, que convida ao diálogo: há um apelo ao espectador para vir também escrever sobre o muro (…). Ao lado do conteúdo literário do graffiti, há um conteúdo plástico que expressa uma relação spray/ muro, o que conseqüentemente faz do graffiti uma meta-linguagem”.

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