Pampulha 13 – memória

 

ISAURA PENA

Benja e Mário Vale deveriam ter tido a companhia, nas paginas da revista Pampulha, da artista plástica Isaura Pena.

Em texto inédito, onde Carlos Ávila atrai na sensibilidade desde “A flor da pele. A flor da pena”, é bom rever riscos tão especiais, de 1983, os quais pertencem à história estético que esta cidade acompanhou com prazer, na última década:

Primeiro foram as aquarelas, leveza infantil, que vimos na casa de Maurício (Andrés). Maravilha!

E o nome dela ficou na cabeça, no coração.

Depois Mário Azevedo falando e mostrando gravuras, num papo que ia do desenho infantil a Paul Klee, sabiamente.

Entre os dois momentos, entram salões e coletivas, onde sua arte mínima, nos meios e na expressão, seu lance sóbrio se escondia sob pilhas e pilhas de artefatos plásticos.

Finalmente descobrimos a artista, no seu “cantinho”. Nos fundos de uma casa velha, entre crianças e os alegres borrões de escolinha de arte infantil (onde dava aulas). Quase quintal. Quintal, esse espaço que vai desaparecendo…

Ela se revela. Alma. Calma. Mais no gesto do que nas palavras. Mais aos desenhos, gravuras (metal & lito), monotipias e pinturas… Do silêncio cortado pelo risco, ainda preto e branco, ao leque de cores no espaço. Do micro (pequenas gravuras de metal) ao macro (sua pintura colorista, surpresa viva) uma viagem medida.

Fica clara a tensão entre técnica e intuição, a artista trabalha no interstício. Aí surgem suas formas uterinas, fósseis, geológicos, que finalmente vôo se libertar e expandir em cor. Sua pintura engendra surpresas…

Não há muito a dizer sobre atmosfera plástica tão rarefeita. Agora a artista arrisca: “riscou está riscado”, como ela mesma definiu. O risco sensível – e mais difícil. À flor da pele. À flor da pena. Vejam vocês mesmos.

“Sentir é estar distraído”: ISAURA PENA, apenas.

Carlos Ávila.

 

THALES PEREIRA

Designer/llustrador

Thales Pereira nasceu no Rio de Janeiro de 1952. Em 1970 transferiu-se para Belo Horizonte e em 1974 concluiu o curso de Comunicação Visual da FUMA, onde lecionava – à época em que escreveu artigo na revista Pampulha – Planejamento. Exerceu desde 1971 atividades profissionais como free-lancer, tendo desenvolvido projetos nas mais variados áreas da comunicação visual e desenho gráfico.

Com o artigo do qual publicamos trechos nesta matéria, a revista Pampulha iniciava uma abertura de espaço porá publicações na área de Comunicação Visual e Design. aproveitando para situar Thales Pereira: eram de sua autoria marcas como as da Divina Decadência. ZAK e Flamer’s Radial.

A Comunicação Visual e a propaganda têm sido, ainda que com grandes restrições, uma ponta de contato do grande público com a arte visual, através de sua maciça (?) distribuição no meio popular.

Apesar do conteúdo muitas vezes absolutamente comercial das mensagens visuais, é através do desenho gráfico ou da magia da arte que essas mesmas mensagens podem encontrar um meio de abordar e sensibilizar as pessoas.

A grande jogada é que você pode mesclar a uma aparente mensagem comercial, seus próprios toques, via simbologia da linguagem não verbal, ou ainda simplesmente colocar mais uma coisa esteticamente bonita no mundo.

Eu sempre me perguntava se era válido colocar minha arte o serviço de um sistema decadente e já condenado à ruína. Afinal, nosso mundo ocidental não deu certo, né? Mas como estamos todos no mesmo barco e este borco planetário é grande, a minha omissão não muda nada, então é melhor fazer seu trabalho bem feito aqui e agora, xará, porque q nova era acabará também tendo seus patrocinadores invisíveis.

Comunicação visual acaba lembrando linguagem universal, e se ela ajuda por um lado a descaracterizar culturas regionais dignas de serem preservados, ela ajuda também a levar essa cultura com seu próprio tempero ô grande panela da aldeia global, enfim um gostinho a mais para a fome dos muitos. (…)

(…) No fundo, é a maior delicia (…) ver multiplicado por 10.000 aquele desenho, trabalhar com uma arte que não se esconde na parede dos ricos, mas que enfeita as filas de ônibus ou as calçadas e ruas, isso acabo até dando uma forço pro coitado do ego da gente.

Trabalhar 10 anos em Belo Horizonte dá até pra gente ficar famoso em alguns quarteirões da Savassi. É só.

O começo foi como deflorar dolorosamente um mercado’ virgem, o empresário e o comerciante mineiro realmente não sabiam das coisas, “bola uma flâmula pró mim, se eu gostar te pago… Ah! não, tá caro, te dou metade”, mas enfim valeu’. (…)”

 

 

GRUPO CORPO

grupo corpo

 

Acompanhando a trajetória do Corpo, a revista Pampulha dedicou, em seu número 3, matéria de seis páginas à última produção do grupo: Ultimo Trem, palco e bastidores.

Ilustrada basicamente com fotografias de José Luiz Pederneiras, algumas mostrando o ensaio do grupo, outras flagrando Milton Nascimento e Fernando Brant nos bastidores, o matéria traz uma longa entrevista com o argentino Oscar Araiz, explicando a sua participação como coreógrafo do espetáculo; recorda o sucesso de Maria, Maria nos palcos de todo o Brasil, Américas do Sul, e Central – além de duas excursões à Europa (numa das quais participou do Festival de Spoleto, na Itália) – e a produção quase artesanal de Cantares. Uma parceria de Marco António Araújo (música). Humberto Borém (figurino) e Rodrigo Pederneiras (coreografia).

A reportagem – feita por Saul Vilela, com a participação de Freuza Zechmeister e Jô Vasconcelos e a colaboração de Priscila Simões – destacava o profissionalismo do Grupo Corpo e sua ascensão no cenário artístico brasileiro e mundial.

Na entrevista com Araiz, por exemplo, ficamos sabendo de sua paixão pelo Brasil e os brasileiros (“o argentino não é tão alegre nem tão solto como o brasileiro”), os músicos do país (“são tantos músicos e compositores que fica difícil citar”, mas acaba citando Flávio Venturini, com quem trabalhou, Chico Buarque, António Carlos Jobim e Paulo Jobim, além de Milton Nascimento).

Quando fala de seu trabalho em Último Trem. Araiz explica cada uma das partes do espetáculo – e se fixa no final (“Roupa Nova”), quando explica que teve “muitas dúvidas” ao fazer “o final brilhante do espetáculo, porque é realmente um conflito dramático demais para permitir uma festa”. E afirma: “Mas as pessoas perguntavam, ‘vai ter festa este espetáculo?’. Pensei: eles querem festa, então vamos fazer. É uma característica brasileira, esquecer muito rápido e superar as misérias da vida com alegria”. Araiz arremata: “Mas esta festa é muito significativa, eu acho importantíssima. Tive dúvidas quando eu fazia, mas depois ela saiu de mim, aí gostei. Principalmente porque o tema é o ciclo destino, morte, vida e tempo”.

milton nascimento

 

Fernando Brant, por outro lado, autor da “idéia-semente do espetáculo”, como dizia a revista, dá um depoimento importante e definitivo sobre o Último Trem. Nele, fica-se sabendo das origens deste belo espetáculo:

Em 1972, eu e o fotógrafo Luiz Alfredo publicamos em “O Cruzeiro” uma reportagem com o seguinte título: A VIDA POR UM TRILHO. (Ao longo do leito da antiga estrada de ferro Bahia-Minas, o povo sonha com a volta das locomotivas).

Eis alguns trechos dessa matéria:

“D. Rosaria não contém as lágrimas quando fala da estrada de ferro: ‘-Máquina é pra rodar e maquinista é pra morrer’, dizia o seu marido, Joaquim Bitu, o mais famoso e querido maquinista da região, na época. E ela se lembra do apito do trem apontando ao longe, depois contornando gloriosamente a praça de Ponta de Areia (subúrbio de Caravelas, Bahia). carregado de toras de peroba e jacarandá, o marido acenando ao passar em frente à sua casa. Hoje faz 18 anos que Joaquim (Bitu) Nunes morreu e 7 que q estrada de ferro Bahia-Minas foi extinta. Rosaura, 73 anos, recebe Cr$ 150,00 de pensão do Instituto e sonha com a alegria de viver até que voltem as máquinas matraqueando em cima dós trilhos e, com elos, os seus filhos, que trabalham em outros ramais.

Milhares de histórias como esta são contadas ao longo do leito abandonado da antiga Bahia-Minas, que começou a ser construída nos tempos do Império e viveu até abril de 1966. Ligando Araçuaí (MG) à Ponta de Areia, essa ferrovia tinha grande importância sócio-econômica para os vales mineiros do Mucuri e Jequitinhonha e para o Sul da Bahia. Teófilo Otoni, homem de rara visão, dizia em 1857 que “logo que os produtos agrícolas e o comércio avultarem no vale do Mucuri e adjacências. Caravelas será o empório do comércio estrangeiro, a nossa alfândega e o nosso Rio de Janeiro”.

A reportagem continuava contando a miséria que vimos em cada cidade abandonada pêlos trilhos. Cada estação tinha um novo destino; a de Argolo foi queimada por um louco, a de Aimorés virou escola. No de Mayrink, seu Loió lia salmos e cantava hinos explicando a “era tecnológica” para mulheres e crianças crédulas e desafinadas. Em Nanuque, Laurita Ferreira da Silva, mulher do maquinista Manoel Benedito, morava num vagão da EFBM. Em alguns lugares só se chegava o pé ou a cavalo,

O que mais nos impressionou, na época, é que o povo dessas cidadezinhas lamentava, mas não se desesperava. No meio da miséria vivia a esperança. Só assim se pode entender a frase, que em 1980 uma amiga ouviu entre as ruínas de Ponta de Areia: “Dizem que uma companhia japonesa vai construir de novo a Bahia-Minas”.

Fernando Brant

 

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