Pampulha 13 – memória

 

AEROPORTO DE CONFINS

– Afinal, quem vai ganhar com este aeroporto em Confins?

Esta, a pergunta que a Pampulha número 2 fazia em sua principal reportagem, com chamado de copa, acrescentando dados que tornavam a pergunta ainda mais inquietante: afinal, o aeroporto de Confins iria consumir uma verba de 300 milhões de dólares – cerca de 0,6% do endividamento externo do Pois.

– Para servir o quem? insistia a revista.
E assinalava: com a discussão limitada ao âmbito da área de planejamento do governo estadual, segundo “hábil manobra do (então) secretário Paulo Roberto Haddad (…), o de bate foi escamoteado ao grande público, este sim interessado em influir nas decisões governamentais, pois é quem vai pagar a conta”.

 

aeroporto confins - sylvio

Denunciando um forte lobby na imprensa que colocava de um lado “passarinheiros e sábios excêntricos” e de outro os interessados na edificação de uma grande obra – só que num santuário ecológico – a revisto questionava da necessidade real do aeroporto naquele local e desejava descobrir quais os interesses ocultos atrás do discurso desenvolvimentismo.

Numa das fotos que ilustrava a matéria, Aureliano Chaves (Ministro das Minas e Energia), Francelino Pereira (Governador do Estado), Eliseu Rezende (Ministro dos Transportes) e Délio Jardim de Motos (Ministro da Aeronáutica), apareciam,

“dedo em riste.(…), assinando a sentença condenatória do patrimônio ecológico e científico de Confins”

Na verdade, as entidades preservacionistas – incluindo-se aí o Instituto dos Arquitetos do Brasil, Seção de Minas Gerais – já haviam se posicionado contra o aeroporto, uma vez que o local era um sítio arqueológico com obras rupestres do mais alto interesse científico.

“Reduzir a questão do aeroporto ao problema de sua localização, em nível puramente técnico”, dizia a revista, “é falar uma meia verdade. A questão é muito mais ampla, já que se questiona também a conveniência da construção do aeroporto Metropolitano de Belo Horizonte como a obra está dimensionada”. Esta postura seria própria do “discurso triunfalista” em voga, que tinha sua maior manifestação nas palavras do próprio Governador do Estado, que afirmava, quando do assinatura do edital de concorrência do aeroporto.

Dizia Francelino Pereira: “- (A construção de Confins é) uma obra que, pelo valor do seu investimento, coloco-se ao lado do Açominas, Ferrovia do Aço, Siderúrgico Mendes Júnior, a Fase IV da Usiminas e o nosso Programa Habitacional entre os seis maiores projetos em execução em nosso Estado”.

Os pontos básicos que a Pampulha colocava em discussão não eram – como poderia parecer à primeiro vista – simplesmente emotivos, ou levados pelo furor oposicionista. As questões eram técnicas, apenas. Senão, vejamos.

1. O Governo Estadual reconhecia tacitamente que o mega-aeroporto era localizado numa região importante em termos de preservação.

2. O Governo não realizara estudos técnicos sobre impacto ambiental.
3. O COPAM – órgão do próprio Governo encarregado do controle ambiental, só foi chamado quando a decisão já estava tomada.
4. O PLAMBEL, apesar de ser o órgão encarregado do planejamento urbano da Região Metropolitana de BH, ficou inexplicavelmente fora dos estudos de viabilidade do aeroporto.
5. Da comissão encarregada da obra participam apenas três representantes do Ministério da Aeronáutico, um do DER-MG e outro da Secretaria do Planejamento.

A favor do aeroporto, a Pampulha lembrava a argumentação de seus defensores, que justificavam o empreendimento em função da obsolescência da Pampulha; a concessão feita pêlos construtores, deslocando a construção em dois quilômetros, para proteger porte do sítio; a criação do Porque do Sumidouro (que passou a ser, segundo observação irônica da revista, “a única reserva ecológica do mundo dotada de um aeroporto internacional”); a canalização para o Estado de recursos da ordem de US$ 300 milhões, além da criação de 5 mil novos empregos e grandes encomendas à indústria regional, tornando a obra grande indutor de crescimento da economia de Minas.

No entanto, o próprio Sindicato da Indústria da Construção Pesada, através de seu presidente Marcos Santanno contestava estes números, afirmando que não havia recursos específicos para a construção do aeroporto, “principalmente depois do veto do ministro do Planejamento ò solicitação de empréstimo de US$ 300 milhões, pelo governo do Estado”.

Também o IBP-InstItuto Brasileiro de Planejamento, Seção de Minas Gerais, foi “especialmente demolidor quanto à análise dos critérios de conveniência da obra”. Diz o IBP, depois de divulgar um trabalho de pesquisa sobre o assunto, realizado por três profissionais de engenharia, dois de arquitetura, um de economia e outro de geografia; “A conclusão básica que se pode depreender do relatório, e que configura a posição do IBP-MG diante da questão, é a de que os estudos existentes são absolutamente insuficientes para fundamentar uma decisão de tão grande alcance e implicações para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (…)”.

O IBP enumera ainda, em seu trabalho, itens que o Governo não levou em conta para a construção do aeroporto, que vão desde a falta de estudos sobre o volume do transporte aéreo de carga e correio, passando pelas demandas de tráfego aéreo, formulação de alternativas de localização do novo aeroporto, até chegar ao estudo de viabilidade técnico econômica do projeto.

Ao lado de um artigo de José Eduardo Ferolla, lamentando que se pusesse em perigo – no Vale do Sumidouro – “a placidez de suas lagoas, por onde ainda flutuam tranqüilos marrecos e garças esguias”, a revista encerrava a matéria causticamente:

“- Tudo indica, portanto, que os 300 milhões de dólares do secretário Paulo Haddad serão destinados a alimentar um verdadeiro mastodonte tecnológico, mais uma vez gerado no útero generoso dos gabinetes tecnocráticos. Talvez com um consolo: poderá ser objeto do interesse de cientistas curiosos, preocupados em épocas futuras em explorar os restos de uma civilização megalomaníaca e insensata, como um fóssil gigantesco”.

aeroporto confins

 

PROJETOS

Pampulha – como revista também de Arquitetura, publicou, em seus 12 números, representativos projetos de alguns dos profissionais, de Minas e de outros Estados. Aqui, amostras do que Pampulha editou em suas páginas.

humberto serpe

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *