Pampulha 13 – memória

 

50 ANOS DA EAUFMG

Sob o título “Escola de Arquitetura – Mãe de 50 Anos – Pouco Leite e Traseiro Grande”, matéria assinada por Marco Octávio Teodoro (Marão) pesquisada por Heloisa Gama de Oliveira, Hilda Peilico, Miguel Vorcaro e Paulo Greco, recupera a memória da Escola de Arquitetura para que “haja um renascimento, outro nível de consciência, que desperte na cinqüentenária instituição o Ímpeto de somar o risco das novas aventuras à emoção nostálgica das lembranças”. Era o número 4 da revista Pampulha, que publicava assim sua matéria mais extensa – 10 páginas – , trazendo agradecimentos à colaboração, para sua feitura, de Lúcio Libânio, Marco Aurélio Capitão, Roberto Luiz Monte-Mor, Carlos António Brandão (Caca) “e aos alunos, professores e funcionários desses 50 anos da EAUFMG”.

greve arquitetura

 

Lembrando que, depois de passados 20 anos da mudança da Capital do Estado de Vila Rica poro Belo Horizonte “a produção da arquitetura atrofiou”, restando apenas o trabalho de imitadores “dos pioneiros da Comissão de Construção, como José de Magalhães, autor do Palácio da Liberdade, da Secretaria de Educação e de muitos outros prédios não construídos”, a matéria cita os arquitetos Luiz Olivieri (Estação Ferroviária), Luís Signoreili (Prefeitura), Rafaello Berti (Santa Casa),Ângelo Murgel (Edifício Ibaté), sucessores dos “artífices italianos” (…), “uma geração de forasteiros que aqui lançaram sementes de modernismo”.

Artistas, médicos, engenheiros, advogados, foram agrupados por estes arquitetos – entre eles Signoreili – “e fundaram a primeira Escola de Arquitetura do Brasil. João Kubitschek, um dos fundadores, lembra ’em memorável reunião, no dia 5 de agosto de 1930′, realizada à rua Carangola, em local onde depois funcionariam o Ginásio Afonso Arinos e o Colégio de Aplicação da Fafi”.

Mortin Francisco Ribeiro de Andrade, Leon F. Clerot, Aníbal Matos, Alberto Amarante, Laborne Tavares, Paulo Krugger Mourão, Dario Renault, Saul Macedo e Simão Woods Lacerda são citados como participantes do evento, como professores que eram da também recém fundada Escola de Belas Artes.

A Avenida Afonso Pena 547 foi sua primeira sede, “sem qualquer amparo financeiro”, e paga graças a um sistema de quotas entre os fundadores.

“Aníbal de Mattos assim se referiu aos futuros arquitetos:

– Os transformadores das cidades mineiras, os defensores do progresso’. E logo na primeira década, 13 transformadores: Celso José Werneck de Carvalho, Edmundo Bezerril FonteneIle, Euclides Lisboa, Luiz Pinto Coelho, Vicente Buffalo, Virgílio de Castro, João Jorge Cury, Nicola Santonlia, Raphael Hardy Filho, Sheakespeare Gomes, João Gonçalves Chaves, Juscelino Ribeiro da Fonseca e Tarcísio Silva”.

O reconhecimento pelo CREA (4° Região) viria em 1934, quando o governador Benedito Valadares declarou a escola como de utilidade pública e outro político, o prefeito Juscelino Kubitscheck. Encarregou-se, em 1944, de dar estrutura financeira à escola, assumindo “inteira responsabilidade pêlos encargos financeiros, incorporando-a à Escola de Belas Artes, mas didaticamente autônoma”.(…) “Mais dois anos, e a Escola é Incorporada à Universidade de Minas Gerais, junto com Engenharia, Medicina, Odontologia e Direito”.

Depois de percorrer diversos locais, ora alugados pêlos professores, ora cedidos pelas prefeituras, o Escola finalmente chegou ao lugar onde hoje se encontra: “um mercado desativado, na esquina de Paraíba com Gonçalves Dias”. Ali, “fechou a década de 40 com um incrível número de diplomados; 49”.

O aumento dos estudantes pedia mais professores. E estes foram recrutados entre os ex-alunos: Fontenelle, Hardy, Shakespeare foram os primeiros. Depois, Cuno Roberto Maurício Lussy, Eduardo Mendes Guimarães e Sylvio de Carvalho Vasconcelos (“o primeiro teórico da arquitetura mineira, conhecedor do nosso passado e um dos primeiros a tentar vencer as barreiras que o povo impunha ao modernismo”.)

“Com mais alunos e mais professores, tornou-se necessário ampliar o Mercadinho”, projeto de Shakespeare. que previa a ocupação em L; depois, demoliu-se o prédio antigo, e Shakespeare sugeriu a criação de um jardim – “o que não foi prontamente aceito, pois se considerava um desperdício de espaço”, como depõe o próprio autor do projeto.

De qualquer forma, a Escola continuava q precisar de mais espaço. “A transação que a Escola fez para comprar mais área para o acréscimo é estranha: comprou o miolo do quarteirão”. (…) “Com isso, propiciaram a Shakespeare o criação de um vazio central, que se tornou o espaço mais importante da escola: o pátio, ponto de encontro”.

“Alicerçada, a Escola continuou a sua sobrevivência no mesmo clima que o País”. Afirmou-se em 60 – como o Brasil se afirmava “com a construção de Brasília e a consagração de Oscar Niemeyer”, e a partir de 64 “as coisas se complicaram por todos os lados. Foi ferida que q Escola entrou, em 1969, numa bienal de tema provocativo: ‘Considerando a realidade brasileira, projetar uma Escola de Arquitetura”.

Foi uma época de intenso trabalho, com 19 equipes, mais de 150 pessoas trabalhando. A escola refletia a plena efervescência dos anos 60. Começou-se pensando em fazer uma Escola, mas logo descobriu-se que a idéia deveria ser de um projeto de universidade. Edgar Graeff, Sérgio Ferro, Ruy Othake e outros – entre educadores e sociólogos – foram convocados para a tarefa.

“Nessa época a Escola não fechava nunca”. Tinha até gente que chegou a morar por lá, como é o coso do Roberto Vieira – “que morou no 4° andar durante dois anos. Mas, um dia. fecharam a porta. Tiraram o restaurante do pátio, fecharam a gráfica e o Centro de Pesquiso”, e mais ainda: “o Escola se negou a enviar os trabalhos para o Congresso Internacional de Warmo, na Bulgária, 1972. alegando que nenhum deles tinha atingido ‘nível satisfatório'”.

Instaurou-se o confronto dos alunos com a direção da Escola. E o resposta dos primeiros foi fulminante: passaram a desmistificar a colação de grau.

A primeira foi feita pelo orador da turma, Sérgio Lerman que, em terno vinho, declamava letra da música de um conjunto chamado 14-Bis (não o atual), na suo fala de formatura: “Spoçomanguin, bizinguim, Bizingó”.

“A turma de 70 fez um filme 16 mm, 20 minutos de perplexidade de uma geração que começou a sentir as conseqüências do ‘milagre brasileiro’. No convite, uma paisagem e uma frase: ‘Toda cultura que coloca o homem como centro do universo que o serve e cerca, segrega-o’.”

1972 encerrou este ciclo. Usando um fundo negro, o convite dizia simplesmente: “The dream is over”.
Para chegar até este ponto, a revista lembra que os anos 60 foram, de um lado alegres e, de outro, absolutamente tristes. A alegria ficava por conto da criação do Baile das Bruxas, por exemplo, que repercutiu até na maior revista de então,

“O Cruzeiro”. A tristeza, pela perseguição de que foram vítimas professores e alunos da Escola, “dedurados” por companheiros como adversários do regime de 64. “A turma marcada sumiu como pode”. A Escola foi invadida, exatamente no dia 31 de março, enquanto alguns, – como Sylvio de Vasconcelos, foram levados para a base aérea de Lagoa Santa; outros, como Suzy de Mello, primeira mulher no diretório da Escola, confessavam: “Você não podia confiar em ninguém”.

E conta que um dia disse, em sala de aula, preferir “um bom professor de esquerda que um mau diretor de direita”. Dois dias depois, era chamada ao CPOR para explicar a frase.

Neste ponto, Pampulha questiona o próprio enfoque da matéria. E pergunta: “Lembrar o quê? Concluir o quê? Se já sabemos que a dourada universidade se confunde com a mediocridade e paralisa a gana que temos ou tínhamos de conhecer e cavar essa história de buscas e cansaços a nossa própria história?”

A gana e a construção da história, entretanto, continuariam intactas; em setembro/outubro de 1978, estoura a greve. E o revista assinala: “Naquela época não era só greve, mas A GREVE porque assim parecíamos conquistar um espaço maior para mudar a Escola”. (…) “Nossa força era real e abriu-se para nós a possibilidade de transformar”.

“Como aconteceu com este texto, o Hall da Escola, fecundado pelo ‘Império dos Nossos Sentidos’, perdeu a virgindade, e de puro e beato, abriu-se mais que o país, regredindo até se tornar um humano local de reivindicações”.

E é usando como símbolo o hall da Escola que os autores da matéria questionam o que consideravam o maior pecado: “possuída de aranhas paralíticas e vaidosas, que se recusam
a ceder seu lugar no corpo docente da universidade, a escola não se renova”.

Mas tem esperanças; “Patins, patinete, poetes e nada melhor pra ressaca de greve do que uma festa. E pra aquela GREVE, retomamos em 79 o baile da BRUXA”, representando a incorporação das conquistas de 78, a apropriação do espaço e reunindo “o máximo das gerações – a que estava dando seu testemunho, a que estava “nos escritórios”, e a que chegava, munida de “patins”.

“A maior parte dos que nos lêem já é formado, diplomada e está sentada nos escritórios dizendo: ‘Mas estes meninos continuam os mesmos’, ou então ‘A festa das bruxas voltou, mas nunca será como a de nosso tempo’. Por favor, senhor, afaste de nós este seu papo de aranha que empoeira os labirintos de nossos ouvidos e corredores”.

Chega-se então a março de 1980 – e a “roller generation” ocupa os espaços nas salas de aula.

“E assim, nos perdoamos de escrever este depoimento como se fosse uma carta de amor. Cinqüentenários, não há como esconder nossa carência e desilusão com a escola. Sopramos a velo do bolo com um suspiro melancólico”.

Melancólico, mas cheio de esperança:

“Seja bem vindo, geração patins! Que nossa amnésia seja parte de tua história são os nossos mais sinceros votos de Feliz 81”.

“ARQUITETURA ESPONTÂNEA”

“Estamos iniciando uma nova seção na Pampulha, dedicada aos arquitetos “inconscientes de si mesmos”, mas comum potencial criativo muitas vezes maior que o de muitos PHDs”

Com esta frase, e mais texto de J. E. Ferolla e ilustrações de Èolo Maia, Pampulha 3 abriu espaço para os não arquitetos mostrarem a sua arquitetura.

DIREITOS AUTORAIS

Hildebrando Pontes Neto, advogado membro do Conselho Nacional do Direito Autoral, em 1982, foi convidado para escrever sobre “O Direito Autoral e o Arquiteto”, na Pampulha. O artigo foi publicado, depois, no “Periódico da Organização Mundial da Propriedade Intelectual”, com sede em Genebra, Suíça, e no boletim “Direito do Autor”, da Organização das Nações Unidas, Unesco, Paris.

A abertura da matéria informa sobre o conteúdo do trabalho:

“Hildebrando Pontes foi convidado a proferir palestra no Encontro Nacional do Sindicato dos Arquitetos. Feita a palestra, veio-lhe a idéia de aproveitá-lo em artigo, ora publicado na Pampulha. A matéria é uma publicação especializada no setor, uma vez que aborda especificamente os direitos do arquiteto à luz da lei autoral. O projeto arquitetônico é considerado obra de criação artística – a lei o reconhece – mas, segundo Hildebrando, ‘o artista em geral não tem noção da existência de determinados mecanismos legais que ele tem à sua disposição para fazer valer seus direitos. Então, ele evita o confronto judicial ou porque desconhece a lei, ou porque, desacreditado no poder judicial, o ele não recorre’.

Hildebrando alerta o arquiteto no sentido de que a lei do direito autoral é recente, de 1973, e só pode aumentar a proteção do autor se ele começar a usar os mecanismos legais colocados à sua disposição para que, então, veja ratificado o seu direito pelas decisões dos tribunais: ‘A violação dos direitos vem sendo comum e se faz com tranqüilidade porque atrás disso tem-se sempre a certeza da impunidade’.

Hildebrando salienta ainda os perigos da modernidade da técnica aplicada à arte: ‘O que me parecia fascinante no mundo autoral é que, com a tecnologia, a cibernética, a modernização coloca cada vez mais o autor distante do obra. É o caso do videocassete, reprografia e outros. A legislação americana já protege o autor de programas de computador, enquanto que aqui os autores ainda não sabem, via de regra, seus direitos elementares. Eu me recuso a admitir que o artista é um idiota, um bobo, que todo mundo o passa pra trás. Na prática, ele parece um ingênuo que se permite ser levado pelo vilão que utiliza sua obra. Normalmente, o artista-arquiteto deixa de tomar conhecimento de seus direitos para se ater à criatividade, o que é um erro'”.

 

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