Inspecionando gavetas 3

Arc la aDèfense


Resgatei em uma página do jornal O Globo de 27 de agosto de 1989, segundo caderno, um artigo que reportava o concurso ganho por Jean Nouvel para um edifício a ser construído ao lado do arco projetado por Otto Van Specklesen. Dizia que quando Specklesen projetou o arco para o bairro La Dèfense em Paris sugeriu que, como nas catedrais, seu projeto tivesse um acompanhante, de preferência vertical, que fizesse as vezes de “campanário” e assim fez Jean Nouvel e fez mais ainda, criou uma ilusão de torre infinita apenas trocando materiais de revestimento. Apenas é pouco mas é uma ideia óbvia e genial.

Jean Nouvel

Como o caso começou pelo arco, quando Van Specklesen ganhou o concurso, acho que 1985 e acho que tinha também o objetivo de comemorar o bicentenário da revolução francesa, ficamos, nós arquitetos (eu pelo menos), impressionados com o projeto, com sua também óbvia implantação fazendo um contraponto ao Arco do Triunfo, no mesmo eixo e sem nenhuma citação direta, como fez Bofil (ver ilustração abaixo) e ainda, no vazio do arco quadrado (nunca foi arco) uma trapizonga de tirantes enlouquecidos e lona, leves e tênues junto àquela poderosa massa cúbica. Mais tênue ainda são os vidros que suavemente interrompem o percurso de quem quer ver o parque posterior. Este poderoso projeto foi construído respeitosamente após a morte do arquiteto que também previu um entorno vizinho mais criativo, que ampliasse a força do “arco”, emoldurando-o (também pode ser visto no seu croqui também abaixo) o que não aconteceu e o que se vê são imensas massas de vidro de certa maneira medíocres perto desta obra.

Bonfil


Pela foto frontal do arco percebe-se um punhado destas inserções tanto nas laterais como na sua frente, sejam elas prédios definitivos ou quiosques, placas e outras bobagens, livrando apenas a alma do Miró a esquerda e do Calder a direita (acertei?).

Miró e Calder

Jean Nouvel projetou e não construiu sua torre campanário com o devido respeito ao colega e sem perder sua posição de estrela do meio arquitetônico. Então dá para fazer assim, não é?

Ali perto, num museu subterrâneo, se assim podemos chamar, estão expostas maquetes do concurso do arco e maquetes posteriores de inserções e mudanças urbanas e etc. deste novo bairro. Ali se poder ter conhecimento do que se está propondo para a cidade e opinar.

Aqui em BH e para sermos recentes tivemos Estoril/Buritis e Belvedere feitos sem nenhum planejamento e sim lote a lote, num patchwork urbano ridículo, bem próprio de uma cidade que resolve seus problemas chamando notórios especialistas ou criando MPs. Nesta história de projetarmos lote a lote, andando pela Afonso Pena encontro nossa torre la dèfense, ali meio escondida, junto ao Milton Campos, também escondido. Ela envergonhada de carregar seu nome (ou do seu homônimo), ele, atrás das palmeiras com sua mão estendida que cria uma curiosa ilusão, basta ir girando seu caminhar da lateral para as costas (visto por quem sobe a Contorno) até que sua mão já quase a sumir, se transforma num pintinho (pênis) como se tivesse fugindo do terno. É muito engraçado.

La Defènse BH

 Milton Campos e seu pintinho.
Afonso Pena 3355.

Viro a página (olhem que é O Globo, jornal do famigerado e já falecido Roberto Marinho) e está ali uma lista dos livros mais vendidos da semana. Vale a penas ver, nenhum de auto ajuda, nem católicos e nem evangélicos, hoje campeões de venda, Só livros incríveis. Que tempos estranhos?!!!

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