SIMPLÍSSIMO

Escrito em 1978, último período na EAUFMG, assim pensava.

“Se as arquiteturas, por exemplo, são visibilidades, locais de visibilidades, é porque não são meras figuras de pedra, isto é, agenciamento de coisas e combinações de qualidades, mas antes de mais nada, formas de luz que distribuem o claro e o obscuro, o opaco e o transparente, o visto e o não visto, etc. (…) uma luz primeira que abre as coisas e faz surgirem as visibilidades como relâmpagos e cintilações, como ‘luz segunda’. (…)Existe, então, um ‘há’ luz, um ser da luz ou um ser-luz, exatamente como um ser linguagem”. Deleuze

Simplíssimo? É o que sempre pareceu. Fazer arquitetura é simplíssimo, é só uma questão de combinação de coisas e de qualidades, numa espécie de habilidade berçaria, daquelas que a gente já nasce com ela, como gostam de dizer os pais e admiradores. Mas e esta luz que distribui este claro e o obscuro, este opaco e o transparente ou o visto e o não visto? Ela é aquela dos cheios e vazios, dos ritmos, das cores sombreadas, dos muros vazados, dos muros estreitos e largos.

E é neste país, com suas diversificadas situações físico-geográficas, que nos apresenta a possibilidade fundamental de criar personalidades definidas que, quando solicitadas a se manifestarem arquitetonicamente, solicitadas a manipularem espaços, formas e gentes, colocam seus pensamentos de maneiras diversas, informadas diferentemente que estão.Estar entre montanhas, de frente para o mar, em pleno planalto central, faz o homem, e no caso o arquiteto, criar estímulos próprios de ver e fazer seu trabalho.
Foi assim, primeiro vendo Brasília, depois montanhas, depois o mar – vários mares, países – tudo ficava cada vez maior, mas sabíamos que isto só nos aproximava de nossas intenções.
Espaços, descobríamos, são como vidas e caminhos. Abertos como os cerrados, fechados como as montanhas, abertos para um dos lados como os litorais e aberto para todos os lados como o “espaço” propriamente dito. Cabe a nós domá-lo e, a cada um, de um modo e a todos, com uma só intenção final: o homem.
Eventualmente a garantia do sustento físico e um imediatismo que relega a segundo plano qualquer intenção cultural é reflexo do sistema reinante.A tecnologia, por exemplo, e com ela os tecnocratas, continuam exercer o poder.

“Os arquitetos acentuam em demasia a questão tecnológica, esquecendo que a tecnologia é apenas um meio importante, mas não um fim em si mesmo. A rigor ela tem produzido com freqüência uma arquitetura consumista. É apenas um instrumento e seu uso, certo ou errado, depende exclusivamente do arquiteto”. Mário Botta
Dentro deste quadro, as cidades sofrem com uma corrida imobiliária desenfreada e inconseqüente. É hora de tomarmos consciência das funções e possibilidades do arquiteto dentro de um contexto social, humano, físico e histórico.
Cria desta situação, muitas vezes atrasamos na detecção dos problemas iniciais, no começo da nossa formação profissional e para suplantar este atraso, deve-se correr atrás de propostas, de trabalhos que venham a ter representatividade, diversidade de forma a não ser necessário a ultrajante situação de sobrevivente profissional e permissivo fabricante de monstruosidades arquitetônicas.
Incorporar no discurso o conhecimento de outras matérias inerentes ou não ao processo de formatação da personalidade arquitetônica. Colocar a boca no trombone das orquestras das mídias diversas. Não se sujeitar ao bombardeio propagandístico dos modelitos e materiais do momento.
Acreditar na beleza da forma, na importância da cor, estímulo e personalidade; nas soluções particulares e coletivas; na dimensão social do projeto; na preservação da história, na interferência da história, no uso da história, na imaginação, na discussão e no exaustivo trabalho da procura como o modo mais congruente ao encontro. Estar serviço de um planejamento urbano que realmente proponha soluções e não mero joguete de atividades políticas e econômicas. Acreditar na relação entre ele e o meio ambiente, na busca de soluções próprias de cada região e na divulgação como fonte de troca de conhecimento, mesmo que a princípio e por falta desta troca, ela se mostre de forma unilateral.
Que estas atividades meio franciscanas abram a possibilidade da exposição viceral dos caminhos de cada um para que juntos possamos fortalecer uma profissão que sempre se apresenta enfraquecida e, consequentemente pouco solicitada.

“(…) o poder, se considerado abstratamente, não vê e não fala. É uma toupeira, que sabe se orientar apenas em sua rede de galerias, em sua toca múltipla: “ele se exerce a partir de inúmeros pontos” ele “vem de-baixo”. Mas justamente, com ele mesmo não fala e não se vê, faz ver e falar”. Deleuze

São conjecturas de uma época que já vai longe mas que me pareceram bastante atuais. As citações de Deleuse e Botta não sei de onde nem de que página nem de que data ou publicação saíram mas são pertinentes e me ajudaram na época a estruturar minhas confusões éticas e profissionais e de alguma forma me direcionaram para um pensar semelhante senão ampliado destes fatos.
Ilustro com uma foto da época que escrevi o texto e termino com uma atual em homenagem ao carnaval de BH. 

Fevereiro de 2018, segunda de carnaval.

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