Universidade Federal do ABC

ARQUITETO SYLVIO EMRICH DE PODESTÁ

COLABORAÇÃO PEDRO ARAGÃO DE PODESTÁ

TEXTO CARLOS ANTÔNIO LEITE BRANDÃO

LOCALIZAÇÃO SANTO ANDRÉ, SP

ÁREA DO TERRENO 77,443,90 M2

ÁREA CONSTRUÍDA 92.956,00 m2

CONCURSO PÚBLICO NACIONAL

PROJETO UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC

ESPAÇO PAR AO SABER DO SÉCULO XXI

Foram dois os principais parâmetros que definiram este projeto: estabelecer uma relação de continuidade e fluidez funcional, científica e formal com o entorno urbano (tensionado entre a densidade construtiva ao norte e a área de proteção ambiental ao sul) e conferir ao conjunto e às suas partes e setores acadêmicos, administrativos e de apoio, personalidade, caráter, legibilidade, flexibilidade e dinâmicas próprias à universidade do século XXI.

O primeiro parâmetro realiza-se arquitetônica e urbanisticamente através do grande pórtico que se abre longitudinalmente acompanhando o Rio Tamanduateí e define os espaços administrativos a oeste, de professores ao centro e de apoio a leste. Através dele, a universidade se faz permeável, acessível e transparente diante do contexto urbano e cívico no qual se insere. A UFABC, uma das primeiras universidades brasileiras deste novo século, não se concebe como um espaço isolado e fechado em relação à cidade, mas interage com ela, projeta-se nela e prolonga-a dentro de si. Assim concebido, seu campus desenvolve o saber universitário próprio ao nosso contexto: cumpre à universidade atual reconhecer não mais ser ela a única fonte de produção de conhecimentos e competência profissional, científica e tecnológica, devendo, assim, interagir com setores da sociedade e da cidade de modo a deixar-se contaminar pelo saber produzido fora dela, misturá-lo com o que engendra dentro de si e estender esse produto, novamente, para a cidade e o país que a abriga.

Essa mesma permeabilidade também articula, mas de modo diverso, a distribuição e a concepção dos núcleos de saber, a norte. Em vez de um grande portal a demarcar a separação entre o ambiente “sagrado” do saber erudito e o outro “mundano” da vida cívica, optamos por conceber os edifícios dos laboratórios e centros de pós-graduação em escala compatível com a cidade à sua volta, não monumentais, em blocos baixos intercalados com passarelas (“bulevares secundários”) que penetram no campus, dão continuidade à vida da polis e à estrutura física da urbs de Santo André. Também aqui não se trata de uma questão exclusivamente espacial, mas da construção de uma idéia do saber contemporâneo onde encontram-se diluídas as fronteiras entre os universos da ciência, da arte, das humanidades e da cidade. (sobre o papel e o saber da universidade no contexto brasileiro e no século XXI, cf. SANTOS, Boaventura. Pela mão de Alice, capítulo 8).
Garantida essa relação de continuidade e fluidez com o que lhe é externo, os edifícios e a distribuição dos espaços da UFABC elaboram uma imagem com caráter específico e condizente com a função de uma universidade dentro da sociedade, como apontamos como nosso segundo parâmetro projetual. Por isso, sua linguagem formal diferencia-se do entorno, sem prejuízo da relação acima definida, de modo a servir-lhe tanto de ponto de referência para a vida citadina quanto de foco visual dentro de uma estrutura urbana que ainda se consolida e deles carece. Os materiais, formas e sistemas construtivos do núcleo dos laboratórios ao norte; o pórtico ao sul; o volume trapezoidal do teatro junto ao antigo e restaurado matadouro; a elipse de convergência do prédio central da biblioteca; o funcionalismo do prédio administrativo no vértice do terreno a oeste e as coberturas dos vários conjuntos e setores constroem este caráter próprio ao campus contemporâneo onde o avançado, o prospectivo e especulativo e a heterogeneidade devem estar expressos. Por essa razão, os vários setores evitam a homogeneidade isomórfica e traduzem-se em linguagens diversas, como as escolhidas para os conjuntos dos laboratórios, da administração central, dos gabinetes docentes, da biblioteca e dos apoios (teatro, exposição, cinemas e lojas).

Se as linguagens que definem esses conjuntos são distintas e contemporâneas, como o saber disciplinar que permitiu os saltos da ciência e tecnologia na modernidade, elas devem, contudo, dialogarem entre si. Eis o que faz uma universidade algo bem maior que uma mera somatória de faculdades isoladas e autônomas. Esse diálogo evidencia-se ao longo dos eixos de circulação e convívio, especialmente o do “bulevar principal” que percorre o terreno de leste a oeste e define com clareza a estrutura do espaço e a setorização dos conjuntos de prédios, o que é fundamental diante da dimensão, diversidade e quantidade de áreas, atividades e usuários internos e externos. Através dele se estabelece uma zona de transição onde a mencionada tensão entre os setores norte e sul da cidade adquire um equilíbrio e ambiência adequada para transitar de um setor ao outro, com suavidade e apropriação pública e cívica. Por isso, este bulevar principal se alarga ao centro, junto ao prédio de onde se irradiam, histórica e simbolicamente, os saberes e as universidades, desde a antiga Alexandria: a Biblioteca. Junto desta, o bulevar se faz praça e centro cívico de convívio entre pessoas, idéias, projetos, saberes, experiências e disciplinas.

Concluindo este eixo, nossa universidade estende-se para leste até encontrar o prédio do antigo “matadouro”, o qual revitalizamos em nosso projeto. Independente de suas qualidades estéticas, ele traduz a existência do que se transmite na tradição e na história da cidade e ao qual o saber científico que se pretenda “novo e avançado” deve manter como seu interlocutor e com ele articular-se. Conclui-se, então, o modo com que a UFABC se configura neste projeto e no nosso presente: como espaço do diálogo. Afinal, cidade e universidade nasceram juntas no século XII, enquanto espaços da liberdade e do diálogo: diálogo entre a memória e a prospecção, entre a tradição e o futuro, entre a academia e a polis e entre os vários saberes e artes que circulam dentro, mas também fora, de nossas instituições de pesquisa e ensino superior.

DO PROGRAMA DE NECESSIDADES
Corpo Administrativo: Reitoria, Pró-Reitoria, Prefeitura do Campus e de Assistência ao Estudante
Corpo Docente: Centro de Ciências Naturais e Humanas, Centro de Matemática, Computação e Cognição, Centro de Engenharias, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas.
Núcleos de apoio, Estacionamentos, Residências estudantes, Refeitório, Anfiteatros, Centro Cultural, Centro Esportivo.

SISTEMA ESTRUTURAL
A malha estrutural é formada por módulos de 9,0×9,0m, intercalados por bulevares localizados entre as salas que também são múltiplos e submúltiplos desta modulação.
Estrutura em perfis laminados de aço (vigas e pilares) com fechamento em painéis de pré-moldados de concreto, cobertura em telhas metálicas termo acústicas e pré-pintadas, pisos cerâmicos, granitos, cimento estrutural e pré-moldados de concreto.
Esta malha estrutural metálica apóia-se sobre estrutura pré-moldada de concreto que conformam os dois pavimentos de garagem. Painéis alveolares extrudadas e decks metálicos completam o sistema geral.

Marcado com , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *